A História da Bantu Chocolate e de um Futuro Melhor para o Cacau

Uma nova economia do cacau liderada por agricultores, fundamentada na cultura, equidade e regeneração

Por Restor.eco

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A Páscoa já passou, mas nós ficamos com o pensamento naqueles ovos de chocolate e nos seus preços visivelmente mais elevados. Por trás do aumento dos custos está uma verdade mais profunda e amarga: as alterações climáticas, o clima extremo e as doenças devastaram as colheitas de cacau na África Ocidental, a região que produz cerca de 80% do cacau mundial (J.P. Morgan Insights).

Por trás de cada barra de chocolate existe uma história agridoce construída sobre um sistema moldado pela exploração e pela negligência. A indústria do cacau ainda depende de uma cadeia de abastecimento que recompensa alguns, enquanto deixa os verdadeiros trabalhadores, muitas vezes no Sul Global, com o mínimo necessário para viver.

Para compreender o que isto significa no terreno, falámos com Veronique Mbida, fundadora da Bantu Chocolate e parceira da Restor, que está a construir um novo tipo de economia do cacau nos Camarões, enraizada na transparência, na equidade e no património coletivo.

Entre mundos diferentes 

Nascida nos Camarões, criada em França e mais tarde estabelecida no Rio de Janeiro, Veronique Mbida há muito que se move entre culturas. Com formação em marketing, apercebeu-se de como o comércio global ignora frequentemente a riqueza das comunidades agrícolas locais e dos ecossistemas, reduzindo-os a fontes de matérias-primas em vez de intervenientes em pé de igualdade na cadeia de valor. Quando a sua mãe lhe ligou a pedir ajuda para planear as operações de venda de cacau da família, Veronique interveio, trazendo para a mesa as suas competências multilingues e estratégicas. Isso deu origem a uma visão diferente: um chocolate cuja origem pode ser rastreada desde o grão até à barra, onde o consumidor é capacitado e reconetado com as pessoas e os locais por trás do produto.

Raízes amargas

Historicamente, a jornada do cacau tem sido marcada pela exploração e pela destruição. O cacau foi introduzido pela primeira vez na África Ocidental no século XVIII, numa altura em que a procura europeia aumentava — e os colonizadores reconfiguravam as economias africanas para a agricultura de exportação. Culturas de rendimento como o cacau, o café e o algodão foram plantadas em monoculturas, deslocando os sistemas agrícolas tradicionais e agravando a insegurança alimentar.

Dessas raízes até aos dias de hoje, o legado permanece. Apesar de alimentarem uma indústria de chocolate multibilionária, a maioria dos produtores de cacau ainda vive na pobreza, auferindo menos de 3% do valor do produto final. Os métodos de cultivo cada vez mais intensificados, em resultado da procura vertiginosa de chocolate, deram origem a uma planta que está a esgotar e a secar os solos e que tem pouca resiliência aos impactos das alterações climáticas.

"O chocolate é alegria", diz Veronique. "E a alegria nunca deve ser alcançada à custa das pessoas ou do planeta."

Um novo ecossistema para o chocolate 

A Bantu Chocolate está a redefinir a cadeia de abastecimento do cacau. Em vez de trabalharem num sistema que frequentemente deixa os agricultores para trás, estão a criar um novo modelo onde os agricultores são proprietários, decisores e beneficiários equitativos do seu trabalho, oferecendo aos consumidores um produto de produção ética e de origem sustentável.

A Bantu Chocolate está a remodelar a cultura do cacau nos Camarões. Os funcionários da plantação da Bantu recebem um salário significativamente superior ao padrão do Fairtrade. Como proprietária de plantações, a Bantu foca-se em práticas agrícolas sustentáveis que garantam a viabilidade a longo prazo da produção de cacau, que está ameaçada pelas alterações climáticas e pela perda de biodiversidade. A Bantu está a investir no desenvolvimento do conhecimento da sua equipa sobre práticas sustentáveis, ajudando-a a adotar técnicas que protegem o futuro da produção de cacau. Este modelo de investimento a longo prazo, que prioriza a sustentabilidade em detrimento do lucro a curto prazo, visa elevar a posição dos trabalhadores do cacau na cadeia de abastecimento global, contribuindo ao mesmo tempo para a preservação do cacau para as gerações futuras.

Não se trata apenas de tornar o chocolate "menos mau" – trata-se de demonstrar uma possibilidade fundamentalmente diferente de como a agricultura global poderia funcionar num futuro mais equitativo. Desafia o pressuposto de que a exploração é o custo inevitável de produtos acessíveis.

A jornada do cacau é frequentemente branqueada por muitos dos grandes produtores de chocolate e, como consumidores, é fácil para nós fecharmos os olhos aos maus-tratos por trás das nossas guloseimas. A Bantu não quer que se sinta culpado por gostar de chocolate: quer que saboreie um produto de alta qualidade sabendo de onde veio, como o produto está a criar meios de subsistência estáveis e um impacto positivo para as gerações vindouras, e que está a regenerar a terra através da melhoria da fertilidade do solo, do aumento do sequestro de carbono e da redução da dependência de produtos químicos sintéticos. É por isso que procuram ativamente financiamento para ampliar o seu impacto e sustentar este trabalho vital. Cada dólar investido cria uma mudança duradoura.

Quando alguém em Los Angeles, Londres ou Bruxelas escolhe os nossos produtos, está a catalisar um efeito cascata que transforma tanto as paisagens como as vidas. Através de uma transparência radical sobre as nossas práticas agrícolas e cadeia de abastecimento, transformamos os consumidores comuns em agentes de mudança conscientes que impulsionam a procura de um impacto sustentável nos sistemas alimentares.

Impulsionado pela transparência

Como fundadora, Veronique utilizou os dados ambientais disponíveis na Restor para aperfeiçoar as práticas agrícolas na plantação da Bantu nos Camarões, melhorando a saúde do solo, sequestrando carbono e aumentando a biodiversidade. Estes dados também podem ajudar a criar oportunidades futuras nos mercados de carbono e no financiamento climático, com potencial para proporcionar rendimentos estáveis e a longo prazo para as comunidades agrícolas no futuro.

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Notas de rodapé

Este desequilu00edbrio continua hoje, com o consumo mu00e9dio anual de cacau na Europa, Amu00e9rica do Norte e Oceania em 2 kg, em comparau00e7u00e3o com a mu00e9dia de 380 g na u00c1frica, e de apenas 40 g nos Camaru00f5es. 

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